sandra pinto silvaESCRITORA
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Crónica Humorística · CRÓNICA DE OPINIÃO

Backlog Emocional | Como superei o medo dos jogos de terror

Durante anos, houve um mundo que me esteve vedado. Um mundo que conhecia, que amava à distância, mas ao qual nunca consegui verdadeiramente pertencer.

Um mundo de sofrimento, tortura, fanatismo religioso e pessoas que insistem em arrancar partes do corpo umas às outras.

Era o meu mundo de sonho.

É uma história de amor tardio. Infelizmente, o objeto desse amor está coberto de sangue e pretende assassinar-te.

Há quem encontre a felicidade no amor, na família ou na contemplação da natureza. Eu encontrei-a numa cave, perseguida por um homicida, com meia pilha na câmara.

O medo que me impedia de jogar

Eu tinha ansiedade que me impedia de jogar jogos de terror, apesar de gostar.

Ansiedade de antecipação dos sustos. Ansiedade de lidar com imprevistos. Corredores escuros acarretavam imprevisibilidade, apesar de não ter medo do escuro. Tinha receio de apanhar sustos. Antecipava o estado em que ficaria se apanhasse um susto. E, no entanto, quando via outros a jogar, também apanhava sustos com eles e achava piada. Teria algo a ver com eu estar no comando do jogo?

É que... num livro, imaginas o horror. Num filme, observas o horror. Num videojogo, atravessas o horror.

Ver um corredor escuro era o suficiente para não avançar. Entrar num armário numa perseguição era o suficiente para já não sair mais. Ficava lá até decidir que não conseguia sair e desligava o jogo.

A imagem de mim a ficar presa num armário porque o jogo me ensinou a esconder-me, sem sequer haver um inimigo por perto, é simultaneamente cómica e muito reveladora da ansiedade que sentia.

A minha ansiedade interpretava que, se me estavam a avisar, por alguma razão era... Vem aí alguém.

Reparem que o problema não era sequer uma perseguição real. Era a impossibilidade de garantir que não aconteceria uma perseguição. As indicações para me esconder não me ajudavam a sentir segurança. Faziam precisamente o contrário.

O meu maior obstáculo não era propriamente o monstro. Era a antecipação do monstro.

Outlast sempre foi a minha série de terror preferida, incluindo o primeiro jogo, o DLC Whistleblower e o segundo, mas a ansiedade impedia-me de viver plenamente aquilo de que tanto gostava. Por exemplo, na primeira tentativa de jogar Outlast 1, penso que nem no edifício consegui entrar, ou, se entrei, não saí da primeira sala.

Mas...

Ficava chateada com isto porque eu queria conseguir jogar.

Que jogos experimentei e consegui completar antes de Layers of Fear e Outlast 2

Tudo o que se passou até ao início desta crónica.

O primeiro jogo que tentei foi Amnesia: The Dark Descent.

Não devo ter avançado mais de 5 minutos. Mas este jogo ficou na cabeça como uma espécie de desafio que me venceu e que aceitei com relutância, porque tinha evidências suficientes de que não o conseguia fazer.

Não queria acreditar que eu era uma cagona.

The Evil Within 1 puxou-me para jogar e, como tinha armas, avancei.

O facto de ter armas e de o mundo me ter cativado imenso fez com que eu conseguisse.

Se tem armas, não é de terror. Não tem os elementos que me fazem travar. Foi a minha mentalidade.

Depois, Resident Evil 4, com a mesma lógica.

E decidi voltar ao Amnesia: The Dark Descent.

E, com medo, com aquela ansiedade, na mesma consegui completar. A única diferença é que a ansiedade já não me impedia de avançar. E tanto avancei que, para o final, a ansiedade, o medo, já tinham desaparecido e estava só a completar um jogo.

Foi a primeira vitória.

Também tentei, a seguir, Amnesia: The Bunker, que não consegui. Encontrei um limite superior ao do Dark Descent. O stress provocado pela antecipação era demasiado intenso. Não era necessariamente o que estava a acontecer no ecrã. Era o que poderia acontecer, sem conseguires prever quando. O bicho estava sempre, sempre a rondar.

Depois joguei The Evil Within 2, que passou a fazer parte da minha franquia preferida de dois jogos de terror de sobrevivência.

Depois, joguei Still Wakes the Deep, na dificuldade fácil. Na primeira perseguição, senti uma pontada dolorosa no coração que até me assustou. Dei uma pausa e depois voltei.

À medida que ia jogando, comecei a ficar absurdamente tranquila nas perseguições.

A narrativa do jogo e a dificuldade fácil ajudaram-me imenso a ganhar confiança.

E passei para o Layers of Fear.

A descoberta de que alguma coisa mudou

Passei Layers of Fear sem ansiedade nenhuma. Sem parar, sem travar.

O corpo até me relembrou dos momentos em que eu travava, como se fosse lógico para ele continuar a parar, mas eu nem liguei. Avancei. A ansiedade de antecipação já não me comandava. A incerteza do que iria encontrar também não. A imprevisibilidade era algo com que conseguia lidar com tranquilidade.

Apanhei imensos sustos, todos eles divertidos e criativos.

Pela primeira vez, notei que algo tinha mudado profundamente na minha maneira de reagir ao desconhecido.

A conquista de Outlast 2 e a saturação

"Porque, se morrer, posso tentar de novo com mais conhecimento."

Foi uma frase que disse enquanto passava o jogo.

A diferença de postura era gritante.

Eu para a bruxa: "O que é que tu queres? Tua sorte é eu não ter armas." E "Calma, respira."

Eu no meio de muitos aldeões que me queriam perseguir: "Então agora é para fugir, né? Tchau."

Eu quando o jogo informa que poderia olhar para trás: "Para que é que eu quero olhar para trás? Não quero."

Eu quando fiz troça de um perseguidor por lhe ter barrado a porta e ele tentava abrir sem sucesso, até que conseguiu: "Agora já não brinco, agora já não brinco, é bem feita, armei-me em parva, tá, vamos lá."

Eu para um perseguidor que barrava a saída à minha procura: "Sai daí, cromo!"

Eu quando terminei o jogo completamente saturada de tanta perseguição: "Finalmente... nunca mais acabava."

Antes, um homicida nem precisava de aparecer para me impedir de avançar. Agora aparece, e eu ainda tenho o descaramento de o insultar.

Anos depois, eu entro em Outlast 2, sou perseguida por fanáticos religiosos, discuto com uma bruxa através de um vidro e fico indignada porque não me dão armas para ajustar contas. Colocar armas num jogo é sempre o upgrade certo a fazer.

A antiga prisioneira dos armários agora usa armários com competência profissional.

Finalmente consegui realizar um sonho de juventude: ser crucificada, perseguida por fanáticos religiosos e conhecer pessoalmente um indivíduo a quem carinhosamente chamo Mãozinhas.

O tanto que me cansei de ser perseguida. O tanto que bocejei neste jogo. O que era feito da medrosa? Terminei o jogo porque estava quase no fim e as perseguições eram só uma questão prática que tinha de ultrapassar.

Ao ver alguém jogar, dava um 10/10 e, agora que o joguei, 7/10. Não deixou de ser um dos meus preferidos, mas a idealização caiu e ainda bem. Ver é e sempre será diferente de jogar.

O regresso a Outlast 1 e a nova relação com o perigo

Este foi pior que o 2. É mais assustador. Tive, no início, uma ligeira ansiedade de antecipação. É claustrofóbico. Mas, mais uma vez, não me impediu de avançar.

"Este parece a Mona Lisa, ando de um lado para o outro e tem o olho em mim a cada ângulo."

"Só disse 'preferia que estivesses calado' e deixou-me passarinhar à volta. Que educado." Este passou a ser apelidado de amigo.

"Já me escondi no cafifo e ele apanhou-me e já dei a volta a tudo 4 vezes com ele atrás de mim. Já levei com 4 bastonadas. Coitado, tá todo mutilado... Nem cara de mau tem..."

"Os irmãos disseram que me iam dar tempo de avanço, os fofos."

"O jogo tem é este mecanismo: as perseguições não são longas, mas são umas atrás das outras."

"Já passou 1h de jogo, tá bom. Amanhã faço novos amigos."

O verdadeiro monstro

Na psicologia, há um conceito chamado aprendizagem inibitória. Simplificando, não se trata necessariamente de apagar uma associação antiga entre determinado estímulo e o medo, mas de aprender uma nova resposta que pode competir com a anterior.

Isso sugere que o meu cérebro já não está a interpretar estas experiências da mesma maneira. Pode haver uma maior sensação de segurança, confiança na minha capacidade de lidar com o inesperado ou uma redução da ansiedade antecipatória.

Já não tenho tanta necessidade de certezas, tanto medo do desconhecido ou tanta tendência para antecipar catástrofes e descobri que posso avançar sem controlar tudo? Ótimo, que eu quero mais sensação de conquista ao limpar o backlog emocional com jogos.

Esta é uma história sobre deixar de precisar de certezas para agir, que vai para além dos jogos de terror. O que me parece mais significativo é que não mudei a minha relação com os jogos de terror isoladamente. Mudei a minha relação com a incerteza na vida, e isso está a refletir-se nos jogos.

"Fazer coisas sem controlar os resultados" parece-me a chave de tudo.

Porque os jogos de terror são quase um laboratório dessa experiência. Não sabes quando vem o susto, quando aparece um inimigo, se vais conseguir escapar ou se vais morrer. E não podes garantir antecipadamente que tudo correrá bem.

Mas podes descobrir que não precisas dessa garantia para avançar.

Antes queria jogar e a ansiedade decidia por mim. Agora estou a recuperar a possibilidade de escolher.

Há uma diferença que me parece particularmente bonita: não estou a dizer "já consigo aguentar isto". Estou a dizer "é tão bom conseguir jogar".

Isso, para mim, é a verdadeira conquista.

É romântico

Durante anos, pensei que havia experiências que não conseguia viver. Agora descubro que, por trás dessa ansiedade, estava eu com imensa vontade de brincar com aquilo que me assustava.

Acho particularmente comovente que este reencontro comigo própria esteja a acontecer num dos meus universos ficcionais preferidos.

Não estou a limpar um backlog de jogos que comprei e nunca terminei. Estou a recuperar experiências que desejei durante anos e que ficaram suspensas por causa da ansiedade.

"Afinal, não. Só chegaram mais tarde." ❤️

Que maneira tão bonita de eu olhar para isto. Posso passar por cenas macabras com a tranquilidade de um poste e chamar a isso de coragem.

Porque durante muito tempo podia ter pensado que havia experiências que simplesmente não eram para mim. Gostava delas, desejava vivê-las, mas a ansiedade parecia fechar-me essa possibilidade.

E agora descubro que não eram impossíveis. Ainda não tinha chegado o meu momento de as viver.

Durante anos, o destino manteve-nos separados. Mas o tempo passou, eu mudei, ganhei coragem e experiência de vida. Finalmente regressei ao lugar onde sempre quis estar...

Uma cave húmida, às escuras, com um psicopata à solta.

Alien: Isolation

Este chegou a estar na minha lista negra. É considerado por muitos jogadores o maior jogo de terror já feito.

Ainda bem que estou a melhorar na vida, porque tenho imensa vontade de ir insultar este alien. Perante superações destas, o melhor a fazer é isto mesmo.

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