sandra pinto silvaESCRITORA
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Comportamento humano · CRÓNICA DE OPINIÃO

Adoro terapeutas.

Adoro terapeutas.

Conseguem ver a dor, mas não a responsabilidade.

(estou a generalizar para efeitos humorísticos...)

“Mas nem todos são assim!” Olha que novidade.

É bom, não é? Podemos ser as vítimas perfeitas. Só tenho pena de uma coisa: odeio ser vítima.

O pensamento crítico dos terapeutas passou anos e anos a ser minado por uma coisa: empatia crónica e seletiva.

Se a empatia fala, é porque é tudo o que precisamos de saber.

O mundo é complexo demais para andar constantemente a analisar se a minha empatia tem bases ou não. Compreendo, também gostava de ser assim.

A base é: mente? Ego. Ego? Mau. Coração? Empatia. Empatia? Verdade.

Vou pegar no caso Ronaldo de novo. Tem sumo.

A mente mente, por isso não é verdade. Porque a mente, se mente, é mentirosa.

Aumentar a minha capacidade de raciocínio e de pensamento crítico? Não, para quê, se sou terapeuta... a resposta é óbvia: feridas.

Feridas...

Feridas... então:

Feridas = tem tanto estatuto = pede desculpa = tem muita emoção = não tem ego = sofre muito = passou fome = como pode ter ego?? = já o vi chorar em tantos jogos = paixão = humilhado = não pode ter ego, um humilhado tem ego? = não, coitado, olha ele a sofrer = já fez tanto por Portugal = não o defendo?? = sinto culpa = vou fazer-lhe o mapa astral = diz que é boa pessoa = logo vi quando ele chorou... = vou proteger Ronaldo até à eternidade = emito culpa para os outros o defenderem também.

É fascinante observar a ginástica psicológica que é feita.

Eu entendo a dor do Ronaldo, portanto vou defendê-lo até ao fim.

Quando compreendo emocionalmente alguém, começo a arranjar-lhe atenuantes infinitas.

E depois o Ronaldo ainda mete no meio do comunicado mais um:

“Aprendi na vida, com fome e sem nada para comer muitas vezes, que ninguém dá nada a ninguém.”

Pronto. Fome.

Quem vai ter coragem agora de criticar um homem bilionário que já passou fome?

Quem vai demonstrar publicamente tamanha falta de empatia?

Porque é que uma adversidade passada haveria de funcionar como imunidade crítica no presente? E porque só funciona com o Ronaldo?

Será apego emocional?

Estou farta de conclusões emocionais que vão construindo uma realidade que permita justificá-las.

Cristiano tem contexto, cansaço, sofrimento, motivações, história, dignidade, família, sentimentos.

Já os outros? Os outros são: “machos mais novos”, “ninho de cobras”, “matilha de hienas”, gente a “salivar ódio”, pessoas com egos e frustrações.

Ou seja: a complexidade psicológica é concedida apenas ao protagonista. Aos restantes são atribuídas intenções negativas.

Exemplo:

Ego de Jesus → defeito com intenção de humilhar o maior do mundo.

Ego de Ronaldo → consequência compreensível do sofrimento.

Vi ainda uma terapeuta que, num conteúdo sobre uma figura pública, se permitiu traçar-lhe um perfil através da sua abordagem terapêutica e fazer comentários bastante depreciativos sobre ela. Depois, fez um post onde reiterava que não ia deixar que nos comentários insultassem Ronaldo.

Tem direito a isso, mas...

A mesma terapeuta que o apresenta como maravilhoso com base no gosto pessoal e no mapa que traçou também usou o gosto pessoal e o mapa de outra figura pública para a esculachar. Com essa podia dizer o que quisesse. Com Ronaldo já era preciso respeito, compreender e ter limites.

Eu fico fascinada. A empatia depende do mapa? Do gosto pessoal? Das duas coisas juntas? E se gostasse muito dele, mas o mapa fosse péssimo?

Não há coerência nenhuma, há uma preferência vestida de superioridade moral, espiritual ou terapêutica.

Primeiro sente-se que “Ronaldo foi injustiçado” e depois vamos encontrar todas as razões que provam aquilo que já sentimos e ignorar o resto.

É uma espécie de abdicação consentida do pensamento crítico. Os factos estão à frente das pessoas, mas, em vez de serem analisados de forma independente, acabam reorganizados para proteger o sentimento.

Estou a interpretar o que aconteceu ou a tentar provar aquilo que já senti?

Se fosse outra pessoa, eu aplicava o mesmo critério?

Porque, se a resposta depende do nome ou estatuto... é culto de personalidade com argumentos de psicologia de conveniência.

Os factos não podem ser só uma mera paisagem para o nosso cérebro.

E há ainda um truque argumentativo muito recorrente: acrescentar características verdadeiras ou positivas de Ronaldo que não respondem à questão em discussão:

“É uma marca internacional carregada de patrocinadores, é pai de família e uma referência para as gerações mais novas.”

Está bem.

Mas ser pai de família diz-nos exatamente zero sobre se devia jogar 90 minutos pela seleção hoje. Diz-nos que tem filhos, patrocinadores e que o que faz é visto pelos jovens como exemplo.

E há uma contradição ainda mais saborosa: li um autor de um texto que invocava humildade imediatamente antes/depois de construir Ronaldo como alfa, símbolo, marca internacional, referência geracional e vítima central de praticamente toda a estrutura.

É uma defesa da humildade com uma aura de imperador galáctico maior que a Terra.

Se por humildade entendermos, neste contexto, aceitar que o treinador pode tomar uma decisão que não nos agrada sem transformar essa decisão numa afronta pessoal, há comportamentos públicos de Ronaldo que tornam muito estranho o autor usar precisamente essa palavra para censurar os outros.

Houve situações em que Ronaldo não se mostrou humilde. Jesus também não. E tá tudo bem. Ambos têm talento, feridas, ego, qualidades. Ambos.

O autor trata “qualidade” como se fosse um atributo vitalício do jogador, quando, no futebol, qualidade só interessa na medida em que se traduz em rendimento atual e encaixe coletivo.

Não é ser invejoso, é pensar no melhor para a seleção. E, sim, usar lógica. Também é preciso.

O argumento é este: Ronaldo tem 41 anos, “milhões de quilómetros nas coxas”, está cansado, foi criticado, foi desrespeitado, está farto e, portanto, quando reage mal, a reação é contextualizada e quase absolvida.

Só que compreender uma emoção não obriga a dar-lhe prioridade sobre tudo o resto. Nem a retirar responsabilidade.

"Está farto, é normal cometer erros".

Sim, ele e o resto do mundo, então.

Se eu te explicar o quanto lhe dói, tu também compreendes e fica tudo bem. Porque a empatia é tão bonita!

Não dá para adiar jogos de futebol para processar emoções e chamar terapeutas para fazer uma constelação familiar no seio da seleção.

A realidade às vezes é muito simples: um jogador envelheceu, outro oferece mais à equipa e o treinador escolheu o outro.

Faz-me lembrar aquela superproteção familiar cega, onde se desculpa o comportamento inaceitável de um adulto sob o pretexto de que 'temos de compreender as suas feridas e falar com mais jeitinho'.

Não pode ficar no banco porque, coitado, depois de tudo o que fez por Portugal...

A paixão cega é uma coisa maravilhosa.

A paixão cega o Ronaldo e ele acaba a fazer asneira.

É tão gente como a gente quando estamos apaixonados, não é?

Mesmo que Ronaldo esteja a sofrer, isso não cria uma obrigação coletiva de lhe dar o lugar que quer.

O direito de Ronaldo às emoções dele não está em discussão. Quero é perceber porque é que tanta gente acha que Portugal tem de as regular.

Portugal não tem obrigação de regular as emoções dele.

E vocês, mulheres e homens muito empáticos, também não.

Ronaldo não tem de ser nosso salvador nem vocês têm de o salvar a ele.

Façam como Ronaldo e renunciem também ao vosso pesado fardo de lutar por injustiças que não mudam o país.

Aqueles comentários de que quem critica Ronaldo tem inveja roçam muitas vezes aquilo a que eu chamaria chantagem emocional coletiva.

“Ronaldo fez tanto por Portugal, logo vocês devem-lhe reconhecimento, gratidão e proteção eterna.”

Claro que fez muito por Portugal. Também fez por si, queria ganhar, bater recordes, ser o melhor e deixar um legado. Essa ambição ajudou precisamente a criar a carreira que teve.

Mas não vamos transformar a ambição pessoal num sacrifício religioso pela pátria.

Ronaldo não passou décadas a sofrer por nós numa prisão, a ser torturado. Jogou futebol, que tanto ama, e ganhou imenso com isso, em todos os sentidos.

Portanto, não me venham vender uma dívida eterna dos portugueses porque ele decidiu ser extraordinário na profissão que escolheu.

Agradecer o que fez não nos obriga a aceitar devoção eterna.

“Ah, mas vocês têm de perceber que ele não é uma pessoa qualquer. É uma lenda.”

Ser uma lenda num desporto não dá superioridade moral nem direitos especiais. E usar o estatuto como argumento não faz com que aquilo que se diz passe a ser verdade.

“Mas ele é o Cristiano Ronaldo. E tu és quem? Um zé-ninguém.”

E desde quando é que estatuto é igual a razão?

Então, se Ronaldo é uma lenda e eu sou um zé-ninguém… isso significa que tu és um zé-ninguém também, porque não és o Ronaldo, portanto a tua opinião de que eu sou um zé-ninguém fica recusada. Logo, não sou um zé-ninguém.

É por aí que vamos? Ser infantis a usar cartas UNO reverse?

E há uma coisa que me impressiona. Dizem que ele é uma lenda e depois que “ele é uma pessoa, também tem sentimentos”.

Então ele é uma lenda ou tem sentimentos?

Que eu saiba, uma lenda é uma narrativa popular de transmissão oral que mistura factos reais ou históricos com elementos fantásticos ou sobrenaturais.

Ok... piada seca, admito.

Tudo gira à volta dele, como aquela mãe que considera o filho melhor do que os restantes.

“Mas mais nenhum coleguinha tem 5 Bolas de Ouro, ou tem?”

Esta frase inventei eu, ninguém disse, mas apanhei o tom.

Ricardo Araújo Pereira diz que ofendemos Ronaldo quando dissemos que ele ainda pode jogar e concordo com ele.

Eu escolho usar a palavra infantilizar.

Ouvi uma avozinha dizer que Ronaldo é um menino de ouro e pronto. Não foi preciso mais nada para as minhas sinapses.

É extraordinária a forma como quem adora Ronaldo acaba tantas vezes por infantilizá-lo.

A avozinha, claro que pode infantilizar, pode ter um neto de 41 anos e continuar a acha-lo o seu menino de ouro, é normal, vá... avozinha absolvida.

Estamos a falar de um homem de 41 anos, com uma carreira extraordinária, uma experiência de vida gigantesca e toda uma estrutura profissional à volta, mas aparentemente não pode ficar alguns jogos no banco.

Coitado, aí a ferida abriu: “Qual falta de humildade? A sofrência dele diz-me que se sente humilhado.”

Sabiam que podem ser as duas coisas?

Uau... SIM!

Ele pode ter ego e ser humilde de vez em quando?

Ele pode ter ego e pedir desculpa?

Ele pode pedir desculpa e, a seguir, cometer um erro qualquer?

Ele pode ser o melhor do mundo e, ao mesmo tempo, eu não precisar de o bajular?

Os terapeutas: “Ele pode sofrer e ter responsabilidade na mesma pelas suas ações? Ao mesmo tempo?”

“Ronaldo colocou Portugal no mapa.”

Claro que Ronaldo deu notoriedade a Portugal.

Mas isso não decide quem joga agora.

Vi um vídeo de uma mulher a dizer que, ao ouvir Jesus afirmar a sua autoridade, voltou emocionalmente à infância, à dor de ouvir os pais dizerem “é assim porque eu mando”. E projetou que Ronaldo talvez pudesse sentir o mesmo.

Acredito que aquela frase lhe tenha tocado numa memória.

Mas ela ter sentido aquilo que sentia com os pais não nos permite concluir que Jorge Jesus está a fazer a Ronaldo o que os pais dela lhe faziam.

Não sabemos.

Temos muito a mania de tentar adivinhar o que o outro sente, principalmente quando é um famoso. Como o vemos várias vezes, confundimos isso com conviver?

O que ela sentiu é verdadeiro sobre ela. Sobre a situação já não sabemos se é.

Um treinador a exercer autoridade profissional não é um pai a exercer autoridade sobre uma criança dependente.

Ronaldo não é uma criança, Jesus não é pai dele e estamos a falar de decidir quem joga futebol.

Ronaldo pode ter sentido aquela autoridade de forma negativa. Isso não significa que ela tenha sido exercida de forma negativa ou que a autoridade seja, como um todo, negativa.

Até porque Jorge Jesus justificou muito bem o porquê de Ronaldo não jogar, ao contrário dos pais que não justificam nada quando dizem “porque eu mando”.

Realmente, pelo comunicado, Ronaldo não gostou da autoridade. Diz que não merece tais palavras rudes. Engraçado que Jesus também o elogiou...

Talvez o problema não tenha sido a autoridade de Jesus. Talvez tenha sido perceber que a de Ronaldo já não funcionava da mesma forma.

“Estás com uma pressa do caralho para me tirares.”

Ronaldo decide, por si mesmo, abandonar o estágio após ouvir declarações do Jesus.

E pronto.

“Ai, coitado, está em sofrimento, querem-no destruir. Ele está entre hienas invejosas. Selecionador mal-agradecido. O Ronaldo é um humilhado. Portugal não o merece. Obrigado, capitão. Vou deixar já hoje o apoio à seleção nacional.”

Depois vem:

“Quebra de palavra para mim tem impacto definitivo.”

Ah.

Pronto.

Se ele diz que não gosta de quebras de palavra, então é um homem justo, correto e íntegro.

E ainda pede desculpa.

Ego?

Que ego?

Investigação fechada. Processo arquivado.

Chorar mais não dá mais razão a ninguém, fazer mais barulho não quer dizer que se sofra mais. Emitir documentos e comunicados não faz de alguém mais correto. Falar não significa cumprir. Os outros também sentem, mesmo que não mostrem tanto.

Porque é que ele sentir determinada coisa implica que milhões de pessoas tenham de se sentir culpadas?

Portugal não o merece, humilhou-o, os portugueses são ingratos, quem critica tem inveja, quem acha que esteve mal está a destruir um herói, querem-no pôr fora da seleção com tudo o que ele fez.

Parece chantagem emocional numa relação, mas aplicada a um país inteiro.

“Não me mereces, estás a humilhar-me, tens inveja, estás a destruir-me, queres pôr-me fora depois de tudo o que fiz por ti. Se me amasses como dizes, exaltavas-me constantemente!!”

"Aliás, erraste tanto que vou privar-te da minha presença"

É um comportamento profundamente egocêntrico, focado apenas na validação do próprio umbigo.

Isto partindo do pressuposto que Jesus não errou, apenas tomou uma decisão técnica tendo em conta o melhor para a equipa que é ganhar aquele jogo.

Vale a pena questionar se isto é realmente um ato de amor-próprio, como vi vários textos mencionarem, ou se é, na verdade, um ato de punir o outro com a sua ausência quando este não faz o que se quer. Mesmo quando essa pessoa, aquela que alegadamente "errou", apresenta uma justificação perfeitamente plausível.

O outro quebrou a palavra, sair passa a ser visto como um ato de amor-próprio. E seria, caso não existisse mesmo outra resolução possível e se, de facto, tivessem ocorrido quebras de palavra com um impacto verdadeiramente definitivo.

(Eu disse que ia usar mais vezes impacto definidor. Adorei)

Mas quando a dinâmica passa a ser: "não fazes o que eu quero, nos meus termos, não me elogias, não provas a todos que me achas o maior, logo vou-me embora"... já não é amor-próprio. É, na verdade, um ato de punir o outro com a sua ausência quando este não se curva à nossa vontade. E quer tenha havido um erro ou não, punir nunca será o caminho mais saudável para uma resolução emocional.

Dizer que é uma quebra de palavra não significa que seja verdade, é preciso analisar o contexto. Temos direito à emoção, não direito a punir o outro. E é aqui que entra a lógica, não para abafar, mas para dar uma direção saudável à resolução.

A admiração já foi tão longe que estamos numa espécie de tutela emocional coletiva.

Reconheço grandeza sem problema nenhum, mas depois usam essa grandeza para dar privilégios morais, põem o estatuto acima da verdade, a notoriedade acima da substância e a emoção acima dos factos.

Tratamos alguém como tratamos os outros e já o estamos a humilhar. Uma decisão profissional transforma-se em trauma parental, deixar de ser o centro é perseguição e admirar alguém passa a significar que lhe devemos alguma coisa.

Entretanto, até o apoio à seleção fica dependente de ele jogar.

Ronaldo tem valor sem ter de carregar Portugal às costas.

Portugal também pode reconhecer o que ele fez sem ter de o carregar às costas.

Estamos a falar de uma pessoa, de um país e de uma equipa.

Podemos reconhecer os três sem inventar uma religião pelo meio.

Se calhar, um pouco menos de adoração e um pouco mais de lucidez fazia bem a toda a gente.

Para a minha sanidade mental, agradecia imenso.

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